Psicanálise

A psicanálise é atrevida

Sobre a acusação de pseudociência, a disputa pela psicoterapia e aquilo que nenhuma garantia de fora consegue garantir.

Por Paulo Suliani

Meu analista me disse, certa vez, que a psicanálise é atrevida. Guardei a frase sem saber direito o que fazer com ela. Levei tempo para perceber que ela não era um elogio, ou não só. Era uma descrição de posição. E também um aviso.

A frase volta agora por dois caminhos que costumam chegar juntos e convém separar. De um lado, a psicanálise é chamada de pseudociência com uma insistência que não é nova, mas ganhou outra escala. De outro, discute-se, com seriedade institucional, se a psicoterapia deveria ser atividade exclusiva de psicólogos. A primeira é uma questão epistemológica. A segunda é uma questão de campo, de poder, de quem tem o direito de escutar o sofrimento de alguém. Misturá-las empobrece as duas.

O que se chama de ciência

A acusação quase sempre parte de Karl Popper. Para ele, o que distingue uma teoria científica é poder ser refutada: ela precisa dizer o que não pode acontecer. A psicanálise, nessa leitura, explicaria qualquer coisa. Se o paciente concorda com a interpretação, ela está confirmada; se discorda, é resistência. Uma teoria que nunca perde não arrisca nada, e o que não arrisca nada não diz nada sobre o mundo.

Seria desonesto fingir que o argumento é fraco. Não é. Mas ele costuma ser usado de modo mais grosseiro do que o próprio Popper o formulou, e com um silêncio conveniente sobre o que veio depois. Adolf Grünbaum, que talvez tenha sido o crítico mais rigoroso da psicanálise no século XX, rejeitou o argumento popperiano. Para ele, muitas teses freudianas são, sim, testáveis. O problema que ele via era outro, e mais incômodo: a contaminação do material clínico pela sugestão, a dificuldade de saber se o que aparece numa análise vem do paciente ou da expectativa do analista. Ou seja, o adversário mais sério da psicanálise desmonta a acusação mais repetida contra ela antes de fazer a sua. E Kuhn e Lakatos, cada um a seu modo, mostraram que nenhuma ciência efetivamente praticada abandona uma teoria diante da primeira refutação. O falsificacionismo, tomado ao pé da letra, condenaria boa parte da física.

O que me interessa mais é que a objeção já estava dentro da própria obra de Freud. Em “Construções em análise”, de 1937, ele parte exatamente da acusação de que o analista sempre ganha, a do cara eu ganho, coroa você perde. E responde de um modo que ainda me parece pouco lido: nem o sim nem o não do paciente valem como prova. Um sim pode ser complacência; um não pode ser resistência, ou pode ser simplesmente um não. O que confirma uma construção é o que ela produz: associações que não estavam disponíveis, uma lembrança que retorna, um sintoma que muda de lugar. O critério sai do assentimento e vai para os efeitos no sujeito. Não é um critério de laboratório. Também não é arbitrário.

Há uma longa tradição que tentou pensar esse estatuto sem reduzi-lo. Paul Ricoeur leu a psicanálise como uma hermenêutica que não abre mão da força, um discurso misto, em que o sentido e a energia não se separam. Habermas a tomou como modelo de uma ciência da autorreflexão, cujo critério de validade passa pelo reconhecimento do próprio sujeito. E Lacan, em “A ciência e a verdade”, faz o movimento que eu acho mais preciso: o sujeito com que a psicanálise trabalha é o mesmo sujeito que a ciência moderna produz e, para funcionar, precisa deixar de fora. A psicanálise se ocupa desse resto. Não por isso ela está fora da racionalidade. Ela está onde a racionalidade científica, por método, decide não olhar.

No terreno empírico, aliás, a acusação é mais frágil do que parece. As psicoterapias psicodinâmicas têm décadas de pesquisa, e revisões como as de Jonathan Shedler e Falk Leichsenring encontram efeitos consistentes, inclusive efeitos que se mantêm e às vezes crescem depois do fim do tratamento. Uso esses dados com cuidado, porque não quero defender a psicanálise pelo mesmo critério que ela, no fundo, interroga. Mas quem diz que não há evidência alguma está, simplesmente, desinformado.

Dito isso, eu não queria me livrar de Popper tão depressa. A crítica dele descreve, com uma precisão quase clínica, uma patologia que existe entre nós: o analista que interpreta tudo, que nunca pode errar, para quem toda recusa é resistência e todo silêncio confirma. Isso tem nome, e o nome é dogmatismo. Freud sabia disso; talvez por isso tenha chamado a psicanálise, junto com educar e governar, de uma profissão impossível. Talvez a psicanálise atrevida seja justamente a que sustenta uma interpretação sabendo que ela pode cair. Atrevimento implica risco. Uma teoria que não arrisca nada não é atrevida. É só blindada.

De quem é a escuta

A segunda briga é mais antiga do que parece, e tem uma estrutura que se repete.

Em 1926, em Viena, Theodor Reik, analista sem formação médica, foi processado por charlatanismo. Freud escreveu “A questão da análise leiga” para defendê-lo, e o argumento é mais radical do que se costuma lembrar. O diploma de medicina não forma um analista e pode até atrapalhar, porque ensina a procurar a causa no corpo e a desconfiar do que é dito. O que forma um analista é a própria análise, o estudo, a transmissão. O processo contra Reik foi arquivado. A briga ficou.

Nos Estados Unidos, Freud perdeu. A psicanálise americana passou a exigir diploma médico, contra a posição explícita dele, e por décadas funcionou praticamente como uma especialidade da psiquiatria. A abertura para não médicos só veio por via judicial: um processo movido por psicólogos em 1985, encerrado por acordo em 1988. Repare no movimento. Quem rompeu a exclusão não foi a defesa da análise leiga. Foi uma categoria profissional reivindicando entrada.

No Brasil a história tem a mesma forma, com tempos diferentes em cada cidade. A psicanálise entra pela psiquiatria, e algumas das sociedades ligadas à Associação Psicanalítica Internacional reservaram por muito tempo a formação a médicos. No Rio de Janeiro, os psicólogos encontraram lugar em outras instituições, que os acolheram quando as mais tradicionais não o faziam. Aqui em Porto Alegre, a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre só passou a aceitar psicólogos em formação em 1989. Não faz tanto tempo assim.

Há uma ironia que eu não queria deixar de lado: Virgínia Bicudo, socióloga, mulher negra, não médica, foi a primeira pessoa a se analisar com Adelheid Koch em São Paulo e está entre as fundadoras da psicanálise no país. A história institucional que veio depois tratou de esquecer isso por bastante tempo.

A psicologia se regulamentou como profissão em 1962. Com os cursos universitários, tornou-se a principal porta de entrada para a psicanálise no país. Daí, suponho, boa parte da confusão atual: como quase todo mundo chega à psicanálise pela psicologia, parece natural que só psicólogos possam praticá-la. É uma contingência histórica que começa a ser tomada por essência.

Em 2013, a psicologia lutou contra a lei do Ato Médico, que pretendia tornar o diagnóstico exclusivo dos médicos. Lutou com razão, a meu ver. Cuidar do sofrimento psíquico não pode ser propriedade de um carimbo. E agora parte da psicologia pede o carimbo para si.

Não leio isso como vilania de uma categoria, e acho que essa leitura seria preguiçosa. Leio como repetição. Ferenczi descreveu, em 1933, um mecanismo que conhecemos bem na clínica do trauma: quem foi submetido a uma violência que não pôde elaborar tende a introjetar o agressor, e com ele a sua lógica. Ele chamou isso de identificação com o agressor. Instituições também repetem. A exclusão passa de mão em mão, e cada um que a recebe jura que, desta vez, é proteção. Bourdieu diria, com menos psicologia e talvez com mais razão, que se trata de uma luta pelo monopólio da competência legítima dentro de um campo. As duas leituras não se anulam. Uma explica a força, a outra explica o que está em jogo.

A psicanálise também já esteve desse lado. Seria desonesto esquecer, e seria um erro de análise: quem esquece a própria participação no circuito é quem está mais exposto a repeti-lo.

O que um diploma não garante

Por baixo da exigência do diploma há uma angústia legítima, e eu não quero tratá-la como bobagem. Quem garante essa pessoa a quem vou entregar o meu sofrimento? O Estado, o conselho, o registro funcionam como uma garantia vinda de fora. É razoável querer essa garantia. A psicanálise, no entanto, recusa exatamente esse lugar. Lacan escreveu, em 1967, que o analista só se autoriza de si mesmo, e anos depois completou: e de alguns outros. A autorização não vem de um carimbo. Vem da própria análise, levada longe o bastante; da supervisão; do estudo que não termina; do laço com outros analistas que podem dizer que não.

Isso é coerente com a teoria. Uma prática que se ocupa do desejo e da singularidade não pode ser garantida por um protocolo universal sem deixar de ser o que é. Mas é também um compromisso pesado, porque exige que alguém sustente esse “alguns outros” com seriedade. E aqui a defesa precisa reconhecer o próprio buraco: a psicanálise tem dado munição a quem a critica. Formações relâmpago vendidas pela internet, cursos que prometem fazer um analista em poucos meses, escolas que não exigem análise pessoal, certificados que se compram. Quando a comunidade analítica não sustenta o rigor, o vazio é ocupado, primeiro pelo mercado, depois pelo Estado. E o Estado, quando chega, chega com a régua que tem.

Talvez o atrevimento seja isso: recusar uma garantia de fora e, justamente por isso, ter que responder pelo próprio rigor, sem ter a quem delegar. Formação livre não pode ser formação frouxa. A liberdade, aqui, é o nome de uma exigência maior, não de uma dispensa.

Quem garante quem escuta o seu sofrimento? Eu não tenho uma resposta fechada, e desconfio de quem tenha. Mas desconfio ainda mais de qualquer resposta que caiba inteira num registro.

Para quem quiser ir adiante

  • Sigmund Freud, “A questão da análise leiga” (1926), “Construções em análise” e “Análise terminável e interminável” (1937)
  • Karl Popper, Conjecturas e refutações, cap. 1
  • Adolf Grünbaum, The Foundations of Psychoanalysis (1984)
  • Paul Ricoeur, Da interpretação: ensaio sobre Freud
  • Jürgen Habermas, Conhecimento e interesse
  • Jacques Lacan, “A ciência e a verdade” e a “Proposição de 9 de outubro de 1967”
  • Sándor Ferenczi, “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933)
  • Pierre Bourdieu, “O campo científico”
  • Jonathan Shedler, “The efficacy of psychodynamic psychotherapy”, American Psychologist (2010), em inglês
  • Falk Leichsenring e Sven Rabung, “Effectiveness of long-term psychodynamic psychotherapy: a meta-analysis”, JAMA (2008), em inglês
  • Revista Brasileira de Psicanálise, v. 52, n. 4, artigo de 2018 sobre a formação restrita a médicos nas sociedades brasileiras
  • Jane Russo, O mundo psi no Brasil