Trauma, corpo, vínculo e identidade
Na Travessia Escola Humanística, compreendemos o trauma não como um evento isolado do passado, mas como uma experiência relacional que permanece viva no corpo, no sistema nervoso e na organização do eu. É a partir desse entendimento que integramos a IoPT (Identity-oriented Psychotrauma Therapy) ao nosso trabalho clínico, formativo e comunitário.
Desenvolvida por Franz Ruppert, a IoPT é uma abordagem profundamente alinhada ao que sustentamos na Travessia:
a cura não acontece apenas por compreensão cognitiva, mas pela reconexão do sujeito com sua experiência viva, com seus afetos, com seus limites e com sua capacidade de estar em relação.
Quando uma criança atravessa experiências de abandono, invasão, violência, negligência ou perda de vínculo, seu sistema psíquico e corporal se reorganiza para sobreviver. O que chamamos de trauma é exatamente isso: uma divisão interna entre partes que sentem a dor, partes que a evitam e partes que tentam funcionar apesar dela.
Essa divisão não é patológica. Ela é uma resposta inteligente à impossibilidade de permanecer inteiro em um ambiente que não foi suficientemente seguro.
A IoPT oferece um caminho preciso para acessar, reconhecer e integrar essas partes.
Identidade, trauma e vínculo
Na Travessia, trabalhamos a partir de uma perspectiva relacional e corporal do trauma. O trauma não é apenas algo que aconteceu comigo, mas algo que interrompeu meu sentir, meu confiar e meu pertencimento.
A IoPT nomeia isso como trauma da identidade. Quando a experiência traumática ocorre em contextos de dependência, como na infância, no vínculo com os pais ou ainda no período pré-natal, o sujeito precisa sacrificar partes de si para preservar o vínculo. Muitas vezes, para continuar pertencendo, ele precisa deixar de sentir, de querer, de se proteger ou de existir plenamente.
Essas renúncias ficam inscritas no corpo e na forma como a pessoa se relaciona consigo, com o outro e com a vida.
Por isso, na prática clínica da Travessia, sintomas como ansiedade, depressão, compulsões, dificuldades amorosas, bloqueios profissionais e sensação de vazio não são vistos como problemas isolados, mas como expressões de uma identidade organizada em torno do trauma.
Como a IoPT atua na prática
O trabalho da IoPT começa com algo simples e profundo: uma intenção.
A pessoa formula uma frase curta que expressa um desejo autêntico, por exemplo:
“Quero entender minha dificuldade de confiar”,
“Quero sentir mais meu corpo”,
“Quero me aproximar de mim”,
“Quero compreender meu medo de abandono”.
Essa intenção é então colocada em um campo de representação, seja em sessão individual ou em grupo. Cada palavra da frase é representada, e os representantes acessam, de forma direta e não interpretativa, os estados internos associados àquela intenção.
O que emerge é a organização interna do trauma:
partes congeladas, movimentos de afastamento, lealdades invisíveis, vínculos interrompidos, emoções que nunca puderam ser sentidas com segurança.
Nesse processo, o corpo fala. O sistema nervoso responde. A memória implícita se manifesta.
E é exatamente aí que começa a possibilidade de transformação.
Trauma, corpo e co-regulação
Na Travessia Escola Humanística, entendemos que o trauma é, na sua raiz, uma ruptura de vínculo. Por isso, a cura não acontece em isolamento, mas em presença, em campo, em relação.
O trabalho em grupo com IoPT cria um ambiente de co-regulação, onde o sistema nervoso pode, pouco a pouco, sair dos estados de colapso, defesa ou hiperativação. O corpo encontra apoio para sentir o que antes era insuportável. A psique encontra um espaço para reorganizar-se sem precisar se fragmentar novamente.
Esse é um ponto central da nossa abordagem:
não se trata de reviver o trauma, mas de vivenciar, agora, uma nova experiência relacional com aquilo que ficou congelado.
Um caminho de travessia
A IoPT, na Travessia, não é uma técnica isolada. Ela é parte de um percurso mais amplo de reintegração do eu, onde corpo, emoção, história e vínculo voltam a se encontrar.
Nosso trabalho não busca ajustar a pessoa a um mundo que a feriu.
Busca apoiar o sujeito a voltar para si, recuperar sua capacidade de sentir, escolher, amar e se posicionar no mundo a partir de um lugar mais inteiro.
Trauma não é quem você é.
É o que aconteceu quando você não pôde ser quem era.
A IoPT é um dos caminhos que oferecemos para essa travessia de volta à própria vida.