Sentir-se Seguro com o Outro: Corregulação na Interseção entre a Teoria do Apego e a Teoria Polivagal
Paulo Ricardo Suliani
Nota
Artigo publicado originalmente em língua inglesa como Feeling Safe with Another: Co-regulation at the Intersection of Attachment Theory and Polyvagal Theory, no Journal of Contemporary Approaches in Psychology and Psychotherapy, Volume III, Número 3, 2025.
Este texto apresenta uma versão simplificada do artigo. A versão original e completa está disponível neste link
Resumo
Este artigo propõe um diálogo conceitual entre a Teoria do Apego e a Teoria Polivagal, posicionando a corregulação como seu principal ponto de convergência. Enquanto a Teoria do Apego explica como experiências relacionais precoces moldam a regulação emocional e os modelos internos de funcionamento, a Teoria Polivagal oferece um arcabouço neurofisiológico para compreender como estados de segurança e ameaça organizam o funcionamento afetivo e relacional. Ao integrar essas perspectivas, o artigo examina como a experiência de sentir-se seguro com o outro constitui uma condição fundamental para a regulação emocional e para a mudança psicoterapêutica.
Em vez de propor um modelo unificado, o trabalho apresenta um enquadre conceitual integrativo que preserva a especificidade de cada teoria, ao mesmo tempo em que destaca seu foco clínico compartilhado na segurança relacional incorporada. A análise demonstra como padrões de apego e estados autonômicos interagem por meio da corregulação nos encontros terapêuticos, favorecendo a tolerância emocional, a confiança relacional e a integração narrativa. Essa perspectiva contribui com uma lente clínica refinada para a compreensão da desregulação afetiva, do trauma relacional e das dificuldades baseadas no apego na psicoterapia contemporânea.
Palavras-chave
teoria do apego; teoria polivagal; corregulação; segurança relacional; psicoterapia; regulação afetiva.
Introdução
A experiência humana é fundamentalmente relacional desde seus primórdios. Não apenas em um sentido simbólico, interpessoal ou cultural, mas em seu nível biológico mais básico: um organismo vivo que se regula, ou falha em se regular, na presença de outro. Sob essa perspectiva, a vida emocional emerge não primariamente como uma conquista intrapsíquica, mas como um processo dinâmico moldado por encontros relacionais incorporados.
Desenvolvimentos contemporâneos na psicologia do desenvolvimento, na neurobiologia interpessoal e na psicoterapia orientada pelo trauma convergem cada vez mais para essa compreensão, destacando o papel central da corregulação na organização do afeto, da identidade e do funcionamento relacional (Schore, 2001, 2022; Siegel, 2020).
Embora originadas em tradições disciplinares distintas, a Teoria do Apego e a Teoria Polivagal convergem em torno dessa premissa fundamental. A Teoria do Apego, desenvolvida por Bowlby (1984) e posteriormente aprofundada por pesquisas empíricas e clínicas (Ainsworth et al., 2015; Mikulincer & Shaver, 2007), oferece um arcabouço desenvolvimental para compreender como relações precoces de cuidado moldam modelos internos de funcionamento que organizam expectativas sobre si, sobre os outros e sobre a disponibilidade emocional ao longo da vida. Em paralelo, a Teoria Polivagal, proposta por Porges (2011), descreve como estados de segurança e ameaça são instanciados no sistema nervoso autônomo, regulando o engajamento social, a mobilização defensiva ou o colapso.
Sob essa perspectiva, a segurança não é apenas uma experiência psicológica, mas uma condição fisiológica que possibilita presença relacional, abertura emocional e conexão interpessoal (Porges & Dana, 2022).
Avanços recentes na neurociência afetiva e na neurobiologia interpessoal reforçam ainda mais que as experiências relacionais são profundamente incorporadas e mediadas neurobiologicamente (Feldman, 2023; Schore, 2022). Esses enfoques sugerem que a regulação emocional, a segurança do apego e a identidade narrativa emergem de interações contínuas entre regulação fisiológica e construção de significado interpessoal. Nesse contexto científico mais amplo, a integração entre modelos baseados no apego e abordagens informadas pela teoria polivagal oferece um diálogo conceitual e clínico particularmente fértil, capaz de aprofundar a compreensão e a intervenção psicoterapêutica.
No centro desse diálogo encontra-se o conceito de corregulação. A corregulação refere-se ao processo relacional pelo qual um indivíduo apoia outro a retornar a um estado de equilíbrio emocional e fisiológico. Mais do que uma técnica deliberada ou estratégia consciente, a corregulação emerge como uma condição relacional incorporada, que se desenrola por meio do ritmo, da sintonia, da previsibilidade e da presença afetiva (Feldman, 2023; Porges & Dana, 2022). Por meio de experiências repetidas de corregulação, os indivíduos gradualmente internalizam capacidades de tolerância emocional, autorregulação e confiança relacional. Nesse sentido, a autorregulação é construída desenvolvimentalmente a partir de uma história de regulação compartilhada (Fonagy et al., 2002; Schore, 2001).
Teoria Polivagal: Regulação Autonômica e Segurança Relacional
A Teoria Polivagal propõe uma compreensão do sistema nervoso autônomo que ultrapassa a oposição clássica entre os ramos simpático e parassimpático. Stephen Porges (2011) descreve uma organização hierárquica de três circuitos neurais, moldados ao longo do desenvolvimento filogenético: o sistema vagal dorsal, associado a estados de imobilização e colapso; o sistema simpático, relacionado à mobilização e às respostas defensivas de luta ou fuga; e o sistema vagal ventral, responsável por sustentar o engajamento social.
O aspecto distintivo da Teoria Polivagal reside em sua ênfase na segurança como um estado fisiológico específico. Quando o sistema vagal ventral está ativo, o organismo torna-se disponível para a conexão. Expressividade facial, prosódia vocal, contato visual e reciprocidade relacional emergem não como comportamentos deliberados, mas como expressões espontâneas de um sistema nervoso regulado.
O conceito frequentemente denominado “escada polivagal” ilustra essa organização hierárquica. Diante da percepção de ameaça, o organismo tende a deslocar-se para estados defensivos de mobilização simpática ou de colapso vagal dorsal. Quando sinais de segurança são detectados, torna-se possível o retorno ao funcionamento vagal ventral e à retomada do engajamento social. Esses deslocamentos ocorrem majoritariamente fora da consciência e antecedem avaliações cognitivas ou interpretações simbólicas da situação.
A partir dessa perspectiva, a segurança relacional é estabelecida menos por meio de garantias verbais ou de elaborações interpretativas e mais por meio de sinais corporais e interpessoais transmitidos no encontro. Em contextos clínicos, esse enquadre destaca a importância da presença regulada do terapeuta. Para indivíduos cujos sistemas nervosos estão organizados em torno de estados crônicos de ameaça, hiperativação ou colapso, o trabalho psicoterapêutico frequentemente se inicia com a restauração das condições fisiológicas que tornam possível o contato relacional.
Assim, a presença do terapeuta não opera como uma técnica específica, mas como um recurso relacional que favorece a corregulação. A qualidade do tom de voz, o ritmo da interação, a capacidade de sustentar contato sem intrusão e a sensibilidade aos sinais autonômicos do paciente constituem elementos centrais desse processo. Nessa perspectiva, a psicoterapia pode ser compreendida como um espaço privilegiado de reorganização autonômica mediada pela relação.
Teoria do Apego: Vínculos Seguros e Modelos Internos de Funcionamento
A Teoria do Apego fundamenta-se na premissa de que os seres humanos são biologicamente orientados à proximidade e à conexão. O apego não constitui um fenômeno secundário ou derivado, mas um princípio organizador central da vida emocional. A busca por proximidade com figuras protetoras exerce uma função reguladora, moldando a maneira como os afetos são vivenciados, expressos e modulados na presença ou ausência de disponibilidade relacional.
Por meio de interações repetidas com cuidadores primários, a criança desenvolve modelos internos de funcionamento que organizam expectativas sobre si mesma, sobre os outros e sobre as relações. Quando o cuidado é suficientemente sensível, consistente e previsível, esses modelos favorecem um senso básico de segurança. O sofrimento emocional torna-se tolerável, pois a criança aprende que o alívio e a regulação podem ser alcançados por meio da relação.
Nesse sentido, o apego seguro não se define pela ausência de angústia, mas pela expectativa de reparação relacional. A regulação emocional emerge de experiências reiteradas de ser acalentado, espelhado e emocionalmente sustentado. Com o tempo, essas vivências dão suporte ao desenvolvimento progressivo de capacidades de autorregulação.
Em contraste, quando as relações de cuidado são marcadas por inconsistência, indisponibilidade emocional, intrusão ou ameaça, os padrões de apego tendem a organizar-se em torno da insegurança ou da desorganização. Tais padrões representam adaptações frequentemente necessárias à sobrevivência em contextos adversos, mas que, mais tarde, podem manifestar-se como ansiedade relacional, retraimento emocional, dificuldades de confiança ou instabilidade afetiva.
A pesquisa clínica e desenvolvimental demonstra que esses padrões de apego não permanecem restritos ao plano representacional ou narrativo, mas se expressam de maneira incorporada, influenciando respostas fisiológicas, estratégias defensivas e modos de engajamento interpessoal ao longo da vida (Schore, 2001; Mikulincer & Shaver, 2007).
Corregulação: Onde Corpo e Vínculo Convergem
A corregulação constitui o ponto de convergência mais fecundo entre a Teoria do Apego e a Teoria Polivagal. Embora formuladas em linguagens conceituais distintas, ambas descrevem um mesmo fenômeno central: a regulação dos estados emocionais e fisiológicos por meio do engajamento relacional.
Pesquisas recentes têm enfatizado cada vez mais a corregulação como um mecanismo fundamental que articula processos de apego e regulação neurobiológica (Feldman, 2023; Porges & Dana, 2022). Do ponto de vista polivagal, a corregulação refere-se a um processo neurofisiológico no qual sinais de segurança transmitidos por outra pessoa facilitam a ativação do sistema vagal ventral. Expressões faciais, tom e prosódia vocal, ritmo da interação e presença corporal funcionam como sinais que sustentam a regulação autonômica. Esses sinais operam, em grande medida, fora do campo da consciência.
Sob a perspectiva da Teoria do Apego, a corregulação emerge da capacidade do cuidador de responder de forma sensível aos estados emocionais da criança, permitindo que a angústia seja sustentada, nomeada e gradualmente organizada dentro de um campo relacional. Em ambos os modelos, a regulação é fundamentalmente relacional antes de se tornar individual. A capacidade de autorregulação não surge de forma espontânea, mas se constrói a partir de uma história de regulação compartilhada.
Quando essas experiências estão ausentes, são inconsistentes ou se encontram marcadas por rupturas precoces, os estados emocionais tendem a tornar-se excessivos ou desorganizados, levando à adoção de estratégias defensivas como hiperativação, retraimento ou dissociação. Pesquisas clínicas e desenvolvimentais indicam que essas histórias relacionais tornam-se incorporadas no sistema nervoso, moldando padrões persistentes de regulação afetiva e expectativa interpessoal (Schore, 2001).
Essas dinâmicas tornam-se particularmente visíveis no contexto clínico. Por exemplo, uma paciente pode apresentar um padrão recorrente: sempre que a proximidade emocional começa a emergir na relação terapêutica, ela relata um aperto súbito no peito, uma sensação de distanciamento e um impulso de se retirar da interação. A partir de uma leitura baseada na Teoria do Apego, essa reação pode ser compreendida como expressão de um padrão evitativo. Sob uma lente polivagal, o mesmo momento pode ser reconhecido como um deslocamento para um estado autonômico defensivo.
Em vez de interpretar esse padrão exclusivamente em termos de significado relacional, o terapeuta dirige sua atenção à sua expressão corporal. A constrição torácica, a respiração superficial e a alteração sutil da postura são compreendidas como indicadores de um afastamento do engajamento vagal ventral. Mantendo um tom de voz calmo, um ritmo estável e contato visual não intrusivo, o terapeuta convida gentilmente a paciente a notar essas sensações enquanto permanece em contato relacional.
A partir de práticas informadas pela Teoria Polivagal, como aquelas descritas por Dana (2018), o terapeuta pode sugerir um breve exercício de orientação ou ancoragem, como olhar lentamente ao redor da sala ou prolongar a expiração, com o objetivo de apoiar a regulação vagal. À medida que o estado fisiológico da paciente começa a se estabilizar, a experiência subjetiva de ameaça diminui, e o impulso de retraimento perde intensidade.
Nesse momento, o padrão de apego não é abordado prioritariamente por meio de insight ou interpretação, mas através de uma mudança no estado fisiológico. Ao trabalhar diretamente com o sistema nervoso, o terapeuta cria as condições para que o significado relacional associado ao padrão de apego possa ser acessado sem sobrecarregar a paciente. A resposta evitativa, anteriormente rigidamente acoplada a estados autonômicos defensivos, torna-se mais flexível, permitindo que novas possibilidades relacionais emerjam no encontro terapêutico.
Nesse sentido, a corregulação não é meramente um elemento de apoio, mas constitutiva do próprio processo terapêutico. Quando terapeutas reconhecem que padrões de apego são incorporados como estados autonômicos, intervenções informadas pela Teoria Polivagal podem favorecer a reorganização da experiência relacional “de dentro para fora”, ampliando a tolerância emocional, a confiança interpessoal e a capacidade de presença.
Convergências, Distinções e Implicações Clínicas
Embora a Teoria do Apego e a Teoria Polivagal tenham emergido de tradições teóricas distintas, sua convergência em torno da corregulação revela uma compreensão compartilhada do funcionamento humano. A Teoria do Apego enfatiza a história relacional e a construção de significado ao longo do desenvolvimento, enquanto a Teoria Polivagal privilegia a organização fisiológica em tempo presente. Essas diferenças não configuram incompatibilidades teóricas, mas níveis complementares de descrição do mesmo fenômeno clínico.
Consideradas em conjunto, ambas as teorias oferecem uma perspectiva clínica mais abrangente. Padrões de apego podem ser compreendidos como estados incorporados, moldados por experiências autonômicas repetidas de segurança ou ameaça, enquanto respostas autonômicas podem ser situadas dentro de histórias relacionais que lhes conferem coerência e sentido. Essa integração mostra-se particularmente relevante no trabalho clínico com trauma relacional, desregulação crônica e dificuldades interpessoais persistentes.
Sob uma perspectiva clínica orientada à regulação, a psicoterapia pode ser entendida como um processo de restauração gradual da flexibilidade relacional e autonômica (Schore, 2022). Nessa direção, a relação terapêutica ocupa um lugar central como espaço de intervenção. Para além da interpretação ou do insight cognitivo, a presença regulada, responsiva e consistente do terapeuta sustenta a reorganização progressiva tanto das expectativas de apego quanto dos padrões autonômicos do paciente.
Ao situar a corregulação na interseção entre apego e fisiologia, esta perspectiva integrativa convida a um deslocamento no foco clínico: da pergunta sobre como os indivíduos deveriam regular-se sozinhos para uma atenção mais cuidadosa aos contextos relacionais que tornam a regulação possível. Tal deslocamento não apenas aprofunda a prática psicoterapêutica, como também a alinha à experiência vivida dos pacientes, reconhecendo que a segurança emocional é construída no encontro, sustentada no corpo e mediada pela relação.
Nota editorial (para a versão em português)
Este texto é uma tradução do artigo publicado originalmente em inglês como
Suliani, P.R. (2025). Feeling Safe with Another: Co-regulation at the Intersection of Attachment Theory and Polyvagal Theory. Journal of Contemporary Approaches in Psychology and Psychotherapy, Volume III, Issue 3, 27 – 38. https://doi.org/10.57017/jcapp.v3.i3.02