Fundamentos teóricos
Teoria do apego: corpo, vínculo e a raiz dos nossos relacionamentos
O que a teoria do apego ajuda a entender sobre o modo como amamos, confiamos e nos afastamos.
Por Paulo Suliani
Na Travessia partimos de uma ideia que parece óbvia e não é: somos feitos de vínculo. O corpo, o sistema nervoso e a própria noção de quem somos se organizam a partir das relações que nos sustentaram, ou que nos faltaram, no começo da vida. A teoria do apego é um dos mapas mais precisos que temos desse processo.
Como a teoria nasceu
John Bowlby era psiquiatra e psicanalista, formado na Sociedade Britânica de Psicanálise. Nos anos 1940 e 1950, estudando crianças separadas das famílias, internadas ou institucionalizadas, ele chegou a uma conclusão que o pôs em atrito com boa parte dos seus colegas: o laço com quem cuida não é derivado da fome nem uma projeção de fantasias. É uma necessidade própria, tão básica quanto respirar ou comer.
Bowlby juntou psicanálise com etologia, o estudo do comportamento animal, e propôs que o apego é um sistema herdado da evolução, que mantém o filhote perto de quem pode protegê-lo. Quando a criança se sente segura com essa pessoa, o corpo relaxa, e é desse lugar que ela consegue explorar o mundo.
Mary Ainsworth, que trabalhou com Bowlby, deu à teoria a sua base de observação. No procedimento que ficou conhecido como Situação Estranha, ela acompanhou como bebês reagiam a uma breve separação da mãe e ao reencontro, e descreveu padrões diferentes de apego ligados à sensibilidade de quem cuidava. Mais tarde, Mary Main e Judith Solomon identificaram um quarto padrão, o desorganizado.
Os padrões de apego
Seguro
Quando quem cuida é consistente e sensível, a criança protesta na separação e se acalma no reencontro. Adulto, tende a confiar, a suportar a intimidade e a pedir ajuda quando precisa.
Ansioso
Quando o cuidado vem às vezes sim, às vezes não, a criança fica em alerta, tentando garantir a proximidade. Adulto, costuma viver com medo de abandono e precisar de confirmação constante de que é amado.
Evitativo
Quando quem cuida está quase sempre indisponível ou rejeita, a criança aprende a não contar com ninguém. Por fora parece independente; por dentro, desligou a necessidade para não sofrer. Adulto, valoriza muito a autonomia e se incomoda com a proximidade.
Desorganizado
Quando quem cuida é também quem assusta, a criança fica sem saída: a fonte de proteção é a fonte de medo. Não há estratégia que funcione. Adulto, oscila entre buscar e repelir o outro, com muita dificuldade de regular as próprias emoções. É o padrão mais associado ao trauma.
Esses padrões descrevem tendências, não destinos, e ninguém é só um deles. Servem para ler uma história, não para pôr uma etiqueta em alguém.
Modelos internos de funcionamento
Bowlby chamou de modelos internos de funcionamento as expectativas que a criança vai formando, sem perceber, a partir das experiências repetidas com quem cuida. Elas respondem a três perguntas:
- o outro é confiável, disponível, responde quando eu chamo?
- eu mereço cuidado, atenção, amor?
- chegar perto é seguro ou arriscado?
Esses modelos não ficam na infância. Operam fora da consciência e influenciam as escolhas amorosas, as reações num conflito, a capacidade de confiar. É aqui que a teoria do apego encontra a psicanálise: aquilo que Bowlby descreve como modelo interno, a clínica psicanalítica reencontra na transferência.
Alguns conceitos-chave
- Base segura. Alguém a quem se pode voltar. Quem tem uma base segura explora mais, arrisca mais, aprende mais.
- Porto seguro. O lugar onde se busca consolo diante da dor ou da ameaça, e onde dá para mostrar fragilidade sem ser rejeitado.
- Sintonia. A capacidade de quem cuida de perceber o estado da criança e responder a ele. Não é dizer a coisa certa; é estar de fato presente.
- O paradoxo do apego. É a segurança que permite a autonomia. Quem pôde depender, aprende a se separar.
Apego e trauma
Quando o vínculo de apego é marcado por abuso, negligência ou imprevisibilidade grave, o trauma não é um acontecimento isolado. É uma violação dentro da própria relação que deveria proteger. Daí as dificuldades de confiar, os padrões que se repetem, a desregulação emocional que parece não ter causa. Muitas vezes a pessoa nem consegue nomear o que aconteceu. Sabe apenas que os relacionamentos são sempre difíceis.
A teoria do apego conversa de perto com a teoria polivagal, que descreve no corpo o que Bowlby descreveu no vínculo. Escrevi sobre esse encontro no artigo Sentir-se seguro com o outro, publicado no JCAPP.
Padrão de apego não é sentença. Novas experiências de vínculo, sobretudo numa relação terapêutica com segurança, constância e reparação, podem transformar esses modelos. Peter Fonagy mostrou, por exemplo, como a capacidade de pensar sobre os próprios estados mentais e os do outro ajuda a romper a transmissão do apego inseguro de uma geração a outra.
Na Travessia
Para nós, todo trabalho terapêutico tem algo de trabalho de apego. Quem vem olhar um trauma, um padrão nos relacionamentos ou simplesmente a própria história encontra, antes de tudo, uma relação: presença, constância, a possibilidade de ser conhecido sem ser julgado. No meu trabalho, a psicanálise estrutura essa clínica; a teoria do apego, a IoPT e o olhar para o corpo entram como interlocutores.
Nos grupos, a mesma coisa acontece de outro jeito. Perceber que não se está sozinho na própria história, e experimentar com outras pessoas uma forma diferente de estar junto, tem um efeito que dificilmente se alcança só.
Se você se reconheceu
Se você reconheceu algo seu nestes padrões, relações que parecem sempre as mesmas, dificuldade de confiar ou de ficar perto, talvez valha começar por uma conversa.
Para ler mais
- John Bowlby, Apego e perda, v. 1: Apego
- John Bowlby, Uma base segura
- Mary Ainsworth et al., Patterns of Attachment (1978), em inglês
- Peter Fonagy et al., Affect Regulation, Mentalization and the Development of the Self (2002), em inglês
- D. W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação
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