Travessia: vínculo, trauma e a construção do humano

Um texto sobre a origem e o espírito do meu trabalho

Paulo Ricardo Suliani

Este texto nasce da minha própria travessia até uma clínica do trauma, do vínculo e da identidade.

Meu caminho até esse trabalho não foi linear nem planejado. Ele se fez por vias inesperadas, por escolhas que só mais tarde revelaram seu sentido, como se um desejo mais profundo fosse encontrando, pouco a pouco, a sua própria forma. Aprendi que a vida não segue apenas nossos ideais conscientes, mas também aquilo que insiste, retorna e pede lugar, mesmo quando ainda não sabemos nomear.

Foi por esse percurso que cheguei primeiro ao Direito, e, por muitos anos, também ao ensino jurídico. Nesse campo, tão próximo da linguagem, do conflito e da responsabilidade, vi pessoas tentando dar sentido a perdas, violências, silêncios e injustiças que ainda estavam vivas dentro delas. Essa experiência marcou definitivamente minha forma de escutar o humano.

Cresci em um ambiente onde a palavra e a escuta sempre tiveram lugar central. Meu pai, editor e professor, transitava entre línguas, livros e tradições de pensamento. Ao mesmo tempo, a experiência de viver entre mundos, histórias e deslocamentos marcou profundamente minha sensibilidade.

Há ainda um dado importante da minha própria história: todos os meus trisavós vieram da Itália durante a grande imigração. Carrego, portanto, uma herança de deslocamento, perda de mundo, reconstrução de vínculos e recomeço. A Travessia, para mim, não é apenas um conceito, mas uma experiência transmitida ao longo das gerações.

Desde muito cedo, a vida me colocou em contato com o peso do humano. Aprendi a sustentar perguntas difíceis, zonas de ambiguidade e dores que não se resolvem rapidamente. Ao longo do meu próprio percurso, uma das grandes lições foi aprender a permanecer inteiro sem me tornar responsável por tudo, a oferecer presença sem ocupar o lugar de quem precisa salvar, e a sustentar profundidade sem me perder no sacrifício.

O campo do cuidado e da escuta também esteve presente desde cedo na minha história. Uma coleção completa de Freud, herdada de minha mãe, atravessou minha formação muito antes de se tornar estudo formal. Minha avó materna foi uma referência viva de afeto e vínculo, enquanto os demais avós estiveram mais distantes no convívio, mas presentes na cultura, nas histórias e na transmissão transgeracional. Nesse contraste entre proximidade e legado, fui aprendendo a perceber nuances emocionais e a reconhecer o valor da sensibilidade, algo que mais tarde se transformaria em uma das minhas principais forças clínicas.

Descobri, também, que minha forma de contribuir não passa pelo controle nem pela performance, mas pela qualidade da escuta, da palavra e da presença. Aprendi que organizar o humano não é impor forma, mas criar espaço para que algo mais verdadeiro possa emergir. Essas lições, construídas na vida pessoal, no ensino e na clínica, tornaram-se o eixo silencioso do meu trabalho.

Foi a partir desse mesmo solo que encontrei a psicanálise. Nela, descobri uma escuta do que não se apresenta de imediato: os sintomas, as repetições, os impasses e as formas pelas quais a história continua falando no presente. A tradição lacaniana me ensinou que o sujeito nasce na linguagem e no laço com o Outro, e que o trauma não é apenas o que aconteceu, mas o que não pôde ser dito nem acolhido.

Com o tempo, a clínica me levou ainda mais profundamente ao campo do trauma. Passei a reconhecer no corpo, no sistema nervoso e nos vínculos as marcas das rupturas precoces de cuidado e de pertencimento. Nesse caminho, encontrei a IoPT, que me ofereceu uma forma clara de compreender a fragmentação do self em partes feridas, partes de sobrevivência e uma identidade que busca se recompor em presença.

O trabalho com constelações familiares ampliou esse olhar, mostrando como essas marcas não pertencem apenas ao indivíduo, mas circulam em sistemas, histórias e lealdades que atravessam gerações. O que parecia pessoal revela, muitas vezes, uma memória maior pedindo lugar.

Tudo isso não vive apenas no estudo, mas na experiência. As abordagens que utilizo e ensino são caminhos que atravessei e continuo atravessando. Faço terapia há mais de vinte anos e sigo em processo, porque acredito que só é possível acompanhar o outro até onde estamos dispostos a ir conosco mesmos. A Travessia nasce desse compromisso: oferecer um espaço onde corpo, palavra e vínculo possam, juntos, sustentar o retorno à vida.