A Travessia
Sobre as constelações que fazemos
“É bem assim mesmo.” É o que muita gente diz quando vê a própria família numa constelação.
Travessia Humanística
Quem nunca esteve numa constelação costuma imaginar outra coisa. Um ritual, um veredito, alguém dizendo o que você deve sentir pela sua mãe.
Sabemos que existem críticas às constelações, e que há problemas reais, como em qualquer campo que mexe com sofrimento. Nenhuma formação, em nenhuma área, garante sozinha o cuidado de quem conduz. A nossa constelação parte de outro lugar, e isso aparece no jeito de trabalhar.
Como é, na prática
Na Travessia é mais simples, e mais delicado. Alguém traz uma questão. Outras pessoas, que até ali eram desconhecidas, aceitam ficar no lugar de um pai, de uma irmã, de um avô de quem ninguém fala. E a pessoa olha. Às vezes é a primeira vez que vê de fora uma coisa que carregou a vida inteira por dentro.
Não tem fórmula para o que vem depois. Tem gente que chora, gente que ri de nervoso, gente que fica um tempo em silêncio e só diz: “é bem assim mesmo”.
O que aparece não é sentença. A pessoa reconhece aquilo como seu, ou não. Quem vem, vem porque quer, decide o que trazer e até onde quer ir. Ninguém diz a ninguém o que sentir, e não há uma ordem a obedecer. Há uma história que pode, enfim, ser olhada.
Quem conduz
Quem conduz é a Luciana. Formação ela tem muita, da UCS, com Maria Justina, a Joan Garriga e à teoria do trauma de Franz Ruppert, e vai bem além disso. Mas o que as pessoas sentem nos grupos é outra coisa: sensibilidade.
O Paulo está sempre junto. Ele também se formou em constelações, no Instituto Marusa, e vem da psicanálise e da psicotraumatologia.
Dois olhares sobre a mesma cena
Talvez seja isso o que temos de mais nosso. São duas pessoas observando o campo, cada uma de um lugar, com uma história de formação diferente e saberes que nem sempre coincidem. O que a Luciana percebe pela sensibilidade e pela experiência sistêmica, o Paulo às vezes escuta por outro caminho, pelo trauma, pelo que a fala deixa escapar. Durante a constelação, os dois trocam impressões. Depois, conversam de novo.
Esse entrosamento não se improvisa. Vem de muitos anos trabalhando juntos, de casa e de grupo, e ancora o campo. Quando alguém entra numa cena difícil, há duas pessoas atentas ao que está acontecendo, ao ritmo, ao que aquela pessoa aguenta olhar naquele dia. Isso dá segurança, e quem participa costuma sentir, mesmo sem saber dizer de onde ela vem.
E há uma coisa que não se aprende em curso: perceber o que cada pessoa precisa naquele momento. Às vezes é ir mais fundo. Às vezes é rir junto.
Um lugar para voltar
Muita gente que vem uma vez acaba voltando, mesmo sem trazer uma nova questão. Volta para representar, para assistir, para estar no grupo. Às vezes é no lugar de outra pessoa que alguém entende melhor a própria história. Para nós, isso diz bastante sobre o tipo de lugar que queremos que a Travessia seja.
Não é só Bert Hellinger
Satir já colocava famílias no espaço antes dele. Moreno levava a vida para a cena com o psicodrama. Boszormenyi-Nagy falou das lealdades invisíveis entre gerações e do equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe. Abraham e Torok, do que uma família cala e reaparece depois. É uma tradição inteira pensando famílias, gerações e o que não se diz.
Algumas ideias dessa tradição sustentam o nosso trabalho de forma muito concreta. Reconhecer que os pais vieram antes e os filhos depois protege a criança de ter que cuidar de quem deveria cuidar dela. Olhar para o equilíbrio entre dar e receber ajuda a entender dívidas que ninguém nomeou. Devolver lugar a quem foi esquecido alivia quem, sem saber, carregava essa ausência. E há um alívio que só vem quando algo do que aconteceu pode, finalmente, ser aceito como parte da história.
Ferenczi, que a própria psicanálise deixou de lado por muito tempo antes de reconhecê-lo como um dos grandes pensadores do trauma, é um bom lembrete de que nem tudo o que incomoda uma instituição está errado. Ninguém sabe sobre alguém antes que a própria pessoa possa dizer algo de si.
Também há pesquisa
As constelações vêm sendo estudadas fora daqui. Na Alemanha, ensaios clínicos da Universidade de Heidelberg acompanharam pessoas que participaram de seminários de constelação e encontraram melhora no funcionamento psicológico, que se mantinha um ano depois.
Em 2021, uma revisão sistemática publicada na revista Family Process reuniu doze estudos, com mais de quinhentos participantes, e encontrou um efeito moderado sobre o sofrimento psíquico. Os autores concluíram que a constelação é uma abordagem útil para a saúde mental e pediram mais pesquisa. É pouco ainda, e é promissor.
Para entender melhor o que são as constelações e de onde vêm, leia Constelações familiares. Sobre a abordagem do trauma de Ruppert, veja IoPT.
Ficou alguma dúvida sobre a nossa constelação?
Pergunta pra gente. As constelações acontecem regularmente, na sala da Travessia em Porto Alegre e online ao vivo.
