Fundamentos teóricos
Constelações familiares: o que são, de onde vêm e como acontecem
O que são as constelações, de onde vêm e como acontece um grupo de constelação na Travessia.
Por Paulo Suliani
Cada um de nós nasce dentro de uma família, com uma história que começou antes e que segue atuando, às vezes sem que ninguém fale dela. As constelações familiares são um modo de olhar para essa história em grupo, colocando-a no espaço para que possa ser vista de fora.
Na Travessia, as constelações são conduzidas pela Luciana. Este texto explica o que elas são, de onde vêm e como trabalhamos.
Uma tradição mais ampla do que se pensa
Costuma-se associar as constelações a Bert Hellinger, que as popularizou a partir dos anos 1980. Mas a ideia de pôr uma família no espaço para olhar para ela é mais antiga e tem uma linhagem rica. Virginia Satir já trabalhava com a escultura familiar, posicionando membros de uma família para tornar visível o que eles viviam entre si. Jacob Moreno levou a vida para a cena com o psicodrama. Ivan Boszormenyi-Nagy descreveu as lealdades invisíveis que atravessam gerações e a contabilidade silenciosa do que se dá e se recebe numa família. Salvador Minuchin mostrou a importância das fronteiras entre as gerações.
Na psicanálise, Nicolas Abraham e Maria Torok pensaram como aquilo que uma geração não consegue elaborar volta, como um fantasma, na geração seguinte. Ferenczi, antes deles, já falava da transmissão do trauma. Mais recentemente, Franz Ruppert e Joan Garriga, cada um a seu modo, aproximaram esse trabalho do trauma e do afeto. É dessa tradição inteira que partimos.
O que sustenta o trabalho
Pertencimento
Todos os que fazem parte de uma família têm direito a esse lugar, inclusive quem foi esquecido, excluído, ou de quem não se fala. Quando alguém fica de fora, é comum que um descendente carregue algo dessa história sem saber de onde vem.
O lugar de cada um
Os pais vieram antes; os filhos, depois. Dito assim, parece simples. Mas quando um filho passa a cuidar emocionalmente de um pai ou de uma mãe, ocupando um lugar que não é o dele, isso pesa, e muito. Reconhecer essa diferença de lugares protege a criança da parentificação e devolve a cada um o que é seu.
Dar e receber
As relações vivem de um equilíbrio entre o que se dá e o que se recebe. Quando ele se perde, por excesso ou por falta, aparecem dívidas que ninguém nomeia e que alguém, mais adiante, tenta pagar com a própria vida. A ideia é de Boszormenyi-Nagy, e continua muito útil.
Lealdades invisíveis
Somos leais às nossas famílias de maneiras que nem sempre percebemos. Essa lealdade liga cada um à vida que recebeu, e pode também prender. Uma filha que não se permite ser mais feliz do que a mãe foi. Um neto que repete, sem saber, o destino de um avô de quem ninguém fala. Reconhecer essas lealdades não é romper com a família. É poder escolher o que fazer com elas.
Como acontece uma constelação
- A pessoa traz uma questão. Em poucas palavras, o que quer olhar: um conflito, uma repetição, uma perda, algo que pesa.
- Escolhe representantes. Pessoas do grupo, que em geral não conhecem a sua história, para ocupar o lugar de membros da família ou de aspectos da situação.
- Os representantes ganham um lugar no espaço. Às vezes é a pessoa quem os posiciona, do jeito que sente, sem pensar muito. Outras vezes são os próprios representantes que, a partir do que sentem, vão encontrando onde ficar.
- O campo se mostra. Os representantes costumam perceber sensações, emoções, impulsos de aproximação ou de afastamento. Quem conduz acompanha, pergunta, pode propor um movimento ou uma frase.
- A pessoa olha. Muitas vezes, pela primeira vez, de fora. Às vezes entra no próprio lugar e vive a cena de dentro.
Representar, assistir, estar ali
Ninguém precisa constelar para participar. Muita gente vem como representante ou só para assistir. E isso não é ficar de fora do trabalho.
Quem representa empresta o corpo a uma história que não é a sua e, de repente, sente coisas que reconhece. Quem assiste vê a família de outra pessoa e pensa na própria mãe, no próprio irmão, num luto que não terminou. Há quem frequente os grupos justamente por isso: pelo campo emocional que se forma ali, por se reconhecer nas histórias dos outros, por encontrar um lugar onde dá para sentir sem precisar se explicar. Para muita gente, é a primeira experiência de estar em grupo e se sentir segura.
O que aparece no campo
Quem nunca viu uma constelação costuma estranhar o que acontece com os representantes: alguém sente um peso, outro tem vontade de chorar, outro quer sair dali, sem conhecer nada da família que está representando.
Hellinger chamava o seu modo de trabalhar de fenomenológico, e a palavra tem peso. A fenomenologia, de Husserl a Merleau-Ponty, é um modo rigoroso de conhecer a partir da observação do que aparece, antes de encaixar o que aparece numa teoria. Merleau-Ponty insistiu que o corpo é o nosso primeiro modo de estar no mundo e com os outros. Observar com cuidado o que se mostra, repetidas vezes, em grupos diferentes, também é uma forma de produzir conhecimento.
Isso não quer dizer que já exista uma explicação completa para o que acontece com os representantes. Não existe, nem na fenomenologia, nem nas outras teorias que tentaram dar conta disso. Mas quem já esteve no lugar de alguém numa constelação, ou viu de perto, sabe que o que sentiu era verdadeiro. Sentiu no corpo. E a pessoa que trouxe a questão costuma reconhecer, naquilo, algo da sua família que nunca tinha conseguido dizer.
Como trabalhamos na Travessia
Quem chega vem porque quer, e decide o que trazer. O que aparece no campo não é uma sentença sobre a vida de ninguém: é uma imagem que a pessoa pode reconhecer como sua, ou deixar de lado. Ninguém diz a ninguém o que deve sentir pelo pai ou pela mãe. O tempo de cada um é respeitado, inclusive o tempo de não saber.
A Luciana conduz, e o Paulo está sempre ali, olhando de outro lugar. Os dois conversam durante e depois. Escrevemos mais sobre esse jeito de constelar em Sobre as constelações que fazemos.
Os temas que costumam chegar aos grupos são variados: relações que se repetem, sensação de não pertencer, perdas e lutos que não se fecharam, histórias de guerra, migração ou pobreza que seguem pesando, dificuldades com o trabalho e com o próprio lugar no mundo.
Há pesquisa
As constelações vêm sendo estudadas, e não só na Alemanha. Uma equipe da Universidade de Heidelberg conduziu um ensaio clínico randomizado com seminários de constelação familiar na população geral e encontrou melhora no funcionamento psicológico dos participantes, que se manteve no acompanhamento de oito e doze meses.
Em 2021, um grupo de pesquisadores reuniram os estudos disponíveis numa revisão sistemática publicada na revista Family Process: doze estudos, com mais de quinhentos participantes. Encontraram um efeito moderado sobre o sofrimento psíquico e concluíram que a constelação é uma abordagem útil para a saúde mental, pedindo mais pesquisa para avançar. São resultados promissores.
Para participar
As constelações acontecem regularmente, na sala da Travessia em Porto Alegre e online ao vivo. Dá para vir trazendo uma questão, como representante ou só para assistir.
Para ler mais
- Bert Hellinger, Ordens do amor
- Bert Hellinger, Gunthard Weber e Hunter Beaumont, A simetria oculta do amor
- Joan Garriga, Onde estão as moedas?
- Virginia Satir, Conjoint Family Therapy (1964), em inglês
- Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark, Invisible Loyalties (1973), em inglês
- Nicolas Abraham e Maria Torok, A casca e o núcleo
- Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
- Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
- Revisão sistemática de 2021, Family Process (em inglês)
- Seminários de constelação familiar, registro do ensaio clínico de Heidelberg (em inglês)
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