Psicotrauma
Vazio interior: quando se perde o contato consigo
Quando parece que algo em nós está ausente, mesmo com tudo no lugar.
Por Paulo Suliani
Tem gente que chega à terapia sem uma queixa que caiba numa frase. O que traz é mais difuso, e por isso mesmo mais difícil de dizer: um vazio. “Sinto um buraco aqui dentro.” “Nada faz muito sentido.” “É como se eu estivesse vivendo sem estar.”
Quem descreve isso costuma pedir desculpas por não conseguir explicar melhor. Não precisa. A dificuldade de nomear já diz alguma coisa sobre o que está em jogo.
O que é o vazio interior
Vazio não é a mesma coisa que tristeza, e não é necessariamente depressão, embora às vezes ande junto com ela. É uma experiência própria: a sensação de que falta um ponto de referência dentro de si. Pode ser um espaço que nunca chegou a ser ocupado, ou um que foi se esvaziando com o tempo.
A psicanálise ajuda a fazer uma distinção que considero importante. Todo sujeito é marcado por uma falta, e é dela que nasce o desejo: queremos porque algo nos falta, e isso não é doença, é o que nos põe em movimento. O vazio de que falo aqui é outra coisa. Em vez de mover, paralisa. Em vez de abrir para o desejo, apaga o desejo.
Ele costuma aparecer assim:
- dificuldade de sentir prazer ou interesse de verdade pelas coisas;
- a impressão de estar desligado da própria vida;
- pouca clareza sobre o que se sente ou se quer;
- a certeza vaga de que algo essencial está faltando, mesmo quando, por fora, tudo vai bem.
Por que eu sinto um vazio dentro de mim?
Às vezes o vazio acompanha uma perda, uma mudança grande, um luto. Nesses casos ele tem endereço, e costuma ceder com o tempo. Quando persiste por anos, sem motivo aparente, vale olhar para mais longe.
Muitas vezes ele vem de muito cedo. Uma criança que cresce sem que suas emoções sejam reconhecidas, sem espaço para ser quem é, deixa de desenvolver algo que mais tarde faz falta. E nem sempre houve uma negligência evidente. O que faltou pode ter sido sutil: um olhar que reconhecesse, uma presença que estivesse de fato ali.
André Green descreveu uma situação dessas com uma imagem forte, a da “mãe morta”: uma mãe viva, presente no corpo, mas emocionalmente ausente, absorvida por um luto ou por uma depressão. A criança perde o contato com ela sem que ninguém perceba que houve perda. Fica um buraco onde deveria haver vínculo. Esse buraco pode atravessar a vida adulta com o nome de vazio.
Essa ausência de base costuma estar ligada ao trauma de identidade e a outras formas de psicotrauma.
Vazio e trauma
O trauma nem sempre deixa marcas visíveis. Muitas vezes ele aparece justamente como ausência: de lembranças, de sensações, de ligação com o que se viveu.
Quando passamos por algo que excede o que conseguimos suportar, uma parte de nós se desliga. É uma forma de proteção, e funcionou. O preço vem depois. Franz Ruppert descreve isso como uma cisão: uma parte guarda a experiência traumática longe da consciência, outra se organiza para sobreviver e seguir em frente. O que se sente como vazio, nesse sentido, nem sempre é falta de conteúdo. É falta de acesso. O que foi vivido continua lá, separado.
Por isso não adianta tentar preencher o vazio de fora para dentro. O trabalho vai em outra direção: criar condições para que o que foi separado possa, aos poucos, voltar a ter lugar.
Vazio e dissociação
A dissociação é um desligamento que protege: da dor, do corpo, das emoções. Num primeiro momento, ela salva. Quando se torna o jeito habitual de estar no mundo, a pessoa está ali de corpo e longe de todo o resto.
A teoria polivagal ajuda a entender esse estado como uma resposta do sistema nervoso diante do que parecia sem saída: em vez de lutar ou fugir, o corpo reduz tudo, como quem se finge de morto para passar despercebido. Alguns sinais que costumam acompanhar o vazio:
- viver no automático, como se a vida acontecesse sem você;
- não lembrar de períodos inteiros da própria história, ou sentir que as lembranças são de outra pessoa;
- a sensação de se ver de fora, ou de não estar inteiramente dentro do próprio corpo;
- emoções amortecidas, como se chegassem abafadas.
Vazio e identidade
Quando não há uma base sólida de quem se é, fica difícil saber o que se quer, o que se sente, o que importa. A vida pode parecer vazia de sentido porque falta, antes, alguém ali para dar sentido a ela. É comum ouvir coisas como: “não sei do que eu gosto de verdade”, “mudo de opinião conforme quem está perto”, “sinto que estou representando um papel”.
Vazio nos relacionamentos
É nos vínculos que o vazio mais se mostra, e de dois jeitos que parecem opostos. Há quem tente preenchê-lo com o outro: a relação vira o único lugar onde se sente existir, e qualquer distância vira ameaça. E há quem se afaste justamente por causa dele, com a sensação de não ter nada a oferecer, ou de que a intimidade é perigosa.
Muitas vezes a mesma pessoa oscila entre as duas posições, entre a fusão e o afastamento, sem encontrar um lugar estável. Essa dinâmica costuma ter raízes nas primeiras relações, no que chamamos de trauma relacional, e a teoria do apego ajuda a descrevê-la.
O que o vazio pode estar dizendo
Por mais difícil que seja, o vazio também informa. Pode estar apontando para partes de si que ficaram separadas, para emoções que nunca puderam ser sentidas, ou para uma vida construída em torno do que os outros esperavam. Não digo isso para torná-lo bonito. Ele dói. Mas escutá-lo costuma levar a algum lugar, o que não acontece quando a gente só tenta tapá-lo.
O caminho de volta
Trabalhar com o vazio é um processo lento, que pede paciência e, quase sempre, alguém que acompanhe. Envolve aprender a reconhecer emoções, mesmo as mais tênues; voltar aos poucos a habitar o corpo; olhar a própria história sem pressa de concluir nada; perceber o que se repete nos vínculos. E, antes de tudo, encontrar um lugar seguro o bastante para que sentir deixe de ser perigoso.
No meu trabalho na Travessia, esse processo se apoia na psicanálise, que estrutura a clínica, e na psicotraumatologia, com a IoPT de Ruppert como uma das ferramentas.
Se você se reconheceu
Talvez valha uma conversa. Contar essa história a alguém que escuta já é um começo, e a partir daí dá para pensar juntos qual caminho faz sentido para você.
Para ler mais
- André Green, “A mãe morta”, em Narcisismo de vida, narcisismo de morte
- D. W. Winnicott, “O medo do colapso”, em Explorações psicanalíticas
- Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
- Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
- Stephen Porges, Guia de bolso da teoria polivagal
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