Texto autoral
De onde vem a minha escuta: trauma, vínculo e palavra
Um texto sobre o percurso, os autores e as perguntas que sustentam o meu trabalho na Travessia.
Por Paulo Suliani
Meu caminho até a clínica não foi linear nem planejado. Ele se fez por vias inesperadas, por escolhas que só mais tarde mostraram o seu sentido, como se um desejo mais antigo fosse encontrando, aos poucos, a própria forma. A vida não segue só os nossos ideais conscientes. Segue também aquilo que insiste, que retorna e pede lugar, mesmo quando ainda não sabemos nomeá-lo.
Antes da clínica, estudei e ensinei por muitos anos num campo onde a filosofia, a sociologia, a antropologia e a política eram matéria de trabalho, e onde o conflito e a violência apareciam todos os dias. Ali vi muita gente tentando dar sentido a perdas, injustiças e silêncios que continuavam vivos dentro delas. Essas leituras não ficaram para trás. Foi com elas que aprendi que nenhum sofrimento é só individual: a violência tem história, tem lugar social, tem quem pode falar dela e quem precisa calar.
A psicanálise e os seus desviantes
A psicanálise é o que estrutura a minha clínica. Com Freud e Lacan aprendi a sustentar o não saber, a escutar nas entrelinhas, a levar a sério que o desejo fala por caminhos tortos e que o sofrimento carrega sentidos que não se decifram às pressas.
Mas há dois autores sem os quais eu não trabalharia do jeito que trabalho. Ferenczi, que levou a sério o trauma real quando quase ninguém queria ouvir falar disso, e que descreveu a confusão entre a linguagem da ternura da criança e a linguagem da paixão do adulto. Ele percebeu que o que mais adoece, muitas vezes, vem depois da violência: o desmentido, o adulto que diz que nada aconteceu. E percebeu também que o analista pode repetir isso sem notar. E Winnicott, para quem ninguém se torna alguém sozinho: é preciso um ambiente que sustente, e quando ele falha cedo demais, a pessoa aprende a existir por fora, num falso self que funciona e não descansa.
Trauma, corpo e vínculo
Os estudos do trauma vieram depois e mudaram muita coisa. A IoPT, de Franz Ruppert, de quem traduzi dois livros para o português, ampliou a minha compreensão de como o trauma fragmenta a identidade e de como certas marcas atravessam gerações. As constelações familiares tornaram visível o que costuma ficar escondido nas famílias.
A teoria do apego e a teoria polivagal me deram um mapa de como o vínculo seguro, ou a falta dele, molda o modo como sentimos, reagimos e nos relacionamos. Escrevi sobre esse encontro num artigo publicado no Journal of Contemporary Approaches in Psychology and Psychotherapy, em 2025, Sentir-se seguro com o outro, sobre a corregulação: a ideia de que o sistema nervoso aprende a se acalmar na presença de alguém, antes de aprender a fazer isso sozinho.
O trauma e a palavra
Uma pergunta me ocupa há alguns anos, e ela vem tanto da clínica quanto da linguística. Émile Benveniste mostrou que só nos tornamos “eu” quando nos dirigimos a um “tu”. Dizer eu é sempre dizer a alguém. E o que acontece com essa posição quando quem estava no lugar do tu foi justamente quem violou?
A minha hipótese é que o trauma relacional afeta a posição de quem pode dizer, e que é aí que a escuta o alcança. Nem sempre o que mais importa é o que a pessoa conta. Às vezes é de onde ela consegue falar, ou não consegue: o eu que some da frase, o relato feito como se fosse sobre outra pessoa, a voz que fica pequena justamente ali. Escutar isso pede outra atenção. Freud nos ensinou a interpretar o recalcado. O trauma pede também que se escute o clivado, as partes de si que deixaram de conversar.
E há, por baixo de tudo, uma ética. Levinas dizia que o rosto do outro me convoca antes de qualquer teoria. Na clínica, isso quer dizer que ninguém sabe sobre alguém antes que essa pessoa possa dizer algo de si.
O que eu procuro oferecer
Penso que não há mudança sem vínculo, e que não há acolhimento de verdade sem a disposição de suportar, junto com o outro, aquilo que ainda não tem nome. Por isso procuro oferecer um lugar onde alguém possa se encontrar consigo, com as suas feridas e as suas forças, sem que a sua história seja reduzida a um diagnóstico ou a um protocolo. Essas tradições todas não se somam como técnicas. Elas se misturam na escuta, e às vezes brigam entre si, o que também é bom.
Por que Travessia, por que Humanística
Travessia, porque não há um ponto final, um dia em que se fica curado e pronto. Há o atravessar, com companhia e no próprio ritmo, mesmo sem saber exatamente para onde.
Humanística, porque o que me move é uma confiança na humanidade de cada pessoa: na capacidade de sentir, de mudar, de amar, de inventar outros modos de viver. Mesmo quando essa capacidade parece perdida, ela costuma estar lá.
A Travessia é a casa que construí com a Luciana Suliani, que vem das constelações e da abordagem sistêmica. São dois caminhos de formação diferentes debaixo do mesmo teto. Escrevemos mais sobre isso em A Travessia.
Em construção
Esse percurso segue em construção. Continuo estudando, continuo escrevendo, continuo sendo transformado pelos encontros da clínica. Não sei bem onde ele vai dar, e prefiro assim.
Para conversar
Se algo neste texto ressoou em você, não precisa ser uma crise para procurar uma conversa. Às vezes é só a intuição de que há mais a ser compreendido.
Para ler mais
- Sándor Ferenczi, “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933)
- D. W. Winnicott, O ambiente e os processos de maturação
- Émile Benveniste, Problemas de linguística geral I
- Emmanuel Levinas, Totalidade e infinito
- Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
- Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
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