Fundamentos teóricos

Teoria polivagal: o corpo, a segurança e o vínculo

Por que sentir-se seguro com alguém é a base de qualquer trabalho com trauma.

Por Paulo Suliani

A teoria polivagal, proposta pelo neurocientista Stephen Porges a partir dos anos 1990, mudou o modo como muitos clínicos pensam o trauma, o vínculo e a regulação emocional. A ideia de partida é simples de dizer e tem consequências enormes: o sistema nervoso não serve só para reagir ao perigo. Ele está, o tempo todo, procurando sinais de que é seguro estar perto de alguém.

Por isso eu a leio menos como uma teoria do estresse e mais como uma teoria de como nos sentimos seguros com os outros. É esse o ponto que interessa à clínica.

O que mudou com Porges

O modelo clássico dividia o sistema nervoso autônomo em dois: o simpático, que prepara para lutar ou fugir, e o parassimpático, que cuida do repouso e da digestão. O trauma aparecia como excesso de um ou falta do outro.

Esse desenho deixava perguntas sem resposta. Por que tantas pessoas traumatizadas não vivem em alerta, e sim em colapso, apagadas? Por que a presença de alguém confiável muda tanto os sintomas? Por que o olhar, a voz e o rosto de quem cuida têm tanto peso? Porges propôs que o sistema nervoso tem uma organização em camadas, herdada da evolução, e que no topo dela está justamente a capacidade de se sentir seguro com outro ser humano.

Os três estados

Vagal ventral: segurança e conexão

O circuito mais recente. Quando ele está ativo, conseguimos olhar nos olhos, escutar de verdade, ter um rosto expressivo e uma voz com melodia. É o estado em que o vínculo é possível.

Simpático: mobilização

A resposta de luta ou fuga diante da ameaça. Necessária quando há perigo real, e cara quando fica ligada o tempo todo, como acontece em quem viveu trauma: alerta permanente, irritação, dificuldade de descansar.

Vagal dorsal: imobilização

A resposta mais antiga. Quando a ameaça parece sem saída, o corpo desliga: entorpecimento, colapso, dissociação, algo próximo da morte simulada dos animais. É uma proteção extrema, e quem a conhece de dentro costuma descrevê-la como estar longe de tudo, inclusive de si.

Esses estados funcionam em hierarquia. A partir da segurança, dá para se mobilizar quando é preciso e voltar. Quando a mobilização não resolve, o corpo pode cair no desligamento. Na clínica, o caminho de volta costuma passar pelas mesmas camadas, em sentido inverso: do apagamento para alguma ativação, e só então para a segurança. Isso explica por que, às vezes, sentir raiva ou medo é sinal de melhora para quem vivia anestesiado.

Segurança se sente no corpo

Uma das contribuições mais úteis de Porges é a noção de neurocepção: a avaliação que o sistema nervoso faz de perigo ou segurança antes de qualquer pensamento. Ninguém se convence de que está seguro. O corpo sente, ou não sente.

E sente a partir de sinais muito concretos, que Porges chama de sinais de segurança:

  • o olhar, presente, sem ameaça;
  • a voz, com uma prosódia calma, que não soa como ataque;
  • o rosto, vivo, em sintonia com o que o outro sente;
  • o ritmo, uma presença previsível e consistente.

Não são técnicas. São modos de estar diante de alguém, e é por eles que um sistema nervoso diz a outro: aqui você pode baixar a guarda.

A janela de tolerância

A expressão é de Daniel Siegel, mas conversa bem com Porges. Ela descreve a faixa em que conseguimos sentir sem sair do eixo. Acima dela, a hiperativação: ansiedade, pânico, raiva. Abaixo, a hipoativação: entorpecimento, desânimo, desconexão. Em quem viveu trauma, essa faixa costuma ser estreita, e pouca coisa basta para sair dela.

Parte do trabalho terapêutico é alargá-la devagar: ampliar o quanto se consegue sentir sem se perder, recuperar a flexibilidade para passar de um estado a outro, e fortalecer a experiência de segurança com outra pessoa.

Teoria polivagal e trauma

Lido por esse ângulo, o trauma não é só uma lembrança ou uma crença. É uma organização do sistema nervoso. Quem viveu uma ameaça da qual não podia escapar, seja violência, abuso ou abandono, aprende no corpo que o mundo é perigoso e que o vínculo é arriscado, e se protege pelo alerta ou pelo desligamento.

Por isso a palavra, sozinha, às vezes não alcança. Antes de interpretar qualquer coisa, é preciso que o corpo possa estar ali. Esse ponto aparece em vários textos do site, como trauma relacional, vazio interior e trauma de identidade.

Um mapa, não um dogma

Vale dizer com honestidade: a teoria polivagal é muito usada na clínica e também é discutida na pesquisa. Parte da sua base neuroanatômica foi contestada, por exemplo por Paul Grossman e colegas. Na Travessia, nós a usamos como um mapa clínico que ajuda a ler o que acontece no corpo dentro de uma relação, e não como explicação final do sofrimento. No meu trabalho, quem estrutura a clínica é a psicanálise; a teoria polivagal entra como interlocutora.

Na Travessia

Na prática, isso quer dizer cuidar dos sinais de segurança desde o primeiro encontro: o olhar, a voz, a constância da presença, o tempo que se dá para alguém chegar. Nos grupos, a mesma ideia vale para o coletivo. Um grupo bem conduzido pode se tornar um lugar onde vários sistemas nervosos aprendem, juntos, que é possível estar perto sem ameaça.

Escrevi sobre a relação entre teoria polivagal e teoria do apego no artigo Sentir-se seguro com o outro, publicado no JCAPP.

Alguns sinais de que o corpo está saindo da defesa: a respiração que fica mais funda e lenta; os músculos que soltam; o rosto e a voz que voltam a ter vida; a capacidade de escutar o outro, que reaparece quando a atenção deixa de estar presa à ameaça.

Se isso faz sentido para você

Se você reconhece em si o alerta constante, o apagamento ou a dificuldade de confiar, talvez o seu sistema nervoso esteja procurando um lugar seguro. Pode começar por uma conversa.

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