Fundamentos teóricos

IoPT: a terapia do trauma de Franz Ruppert

O que é a psicoterapia do trauma orientada para a identidade, criada por Franz Ruppert, e como ela entra no meu trabalho.

Por Paulo Suliani

A IoPT, sigla em inglês para Psicoterapia do Trauma Orientada para a Identidade, foi desenvolvida pelo psicólogo alemão Franz Ruppert, que durante muitos anos foi professor de psicologia em Munique. Ruppert começou trabalhando com constelações familiares e, aos poucos, se afastou do modelo de Bert Hellinger. Em vez de restaurar uma ordem do sistema familiar, passou a se perguntar o que o trauma faz com a identidade de quem o viveu, e como essa pessoa pode reencontrar partes de si que ficaram separadas.

Traduzi dois dos seus livros para o português, e a IoPT é uma das ferramentas com que trabalho na Travessia. A psicanálise continua sendo o que estrutura a minha clínica. A IoPT entra como um modo específico de olhar para o que o trauma separou.

O que é trauma, para Ruppert

Trauma, aqui, não é o acontecimento em si. É o que acontece quando uma experiência ultrapassa a capacidade de alguém de suportá-la, sem saída e sem ajuda. Para sobreviver, a psique se divide. Ruppert descreve essa cisão em três tipos de partes:

  • partes traumatizadas, que guardam a experiência insuportável, com a dor, o medo e a idade em que tudo aconteceu;
  • partes de sobrevivência, que se organizam para manter aquilo longe da consciência: controlam, evitam, se ocupam, se anestesiam, às vezes se identificam com quem causou o dano;
  • partes saudáveis, que continuam existindo e permitem perceber, sentir e querer outra coisa.

Muito do que se repete numa vida, nos sintomas, nos vínculos, nas escolhas, vem das estratégias de sobrevivência. Elas salvaram um dia. Depois, costumam manter a pessoa longe de si.

Uma biografia do trauma

Ruppert propõe ler a história de alguém como uma sequência possível de traumas que se encadeiam, muitas vezes a partir de muito cedo:

  • o trauma de identidade, quando a criança não pôde ser desejada nem acolhida no que era;
  • o trauma de amor, quando o amor dirigido a quem cuida não encontra resposta;
  • o trauma da sexualidade, quando o corpo e a intimidade são invadidos;
  • e o trauma de se tornar perpetrador, quando alguém, a partir das próprias partes de sobrevivência, passa a ferir outras pessoas.

Essa leitura não serve para encaixar ninguém em categorias. Ajuda a entender por que certos sofrimentos aparecem juntos e por que, tantas vezes, eles começam antes de qualquer lembrança.

Como se trabalha

O centro da IoPT é o que Ruppert chama de método da intenção. A pessoa escreve uma frase com aquilo que quer olhar ou compreender, com as suas próprias palavras. Algo como “quero saber de onde vem o meu medo”, ou só “eu quero”. Em grupo, ela escolhe outras pessoas para ressoar algumas palavras dessa frase. No atendimento individual, isso pode ser feito com marcadores no chão.

O que aparece nesse encontro não é interpretado por quem conduz. É a própria pessoa que reconhece, ou não, o que vê, e que decide até onde quer ir. Não há uma verdade do sistema acima dela, nem uma ordem a ser restaurada. Esse é, para mim, um dos pontos em que a IoPT conversa melhor com a ética psicanalítica: ninguém sabe sobre alguém antes que essa pessoa possa dizer algo de si.

O trabalho não pede que se reviva o trauma. Pede que as partes separadas possam se perceber e, aos poucos, se aproximar. Às vezes isso acontece num único encontro, com bastante força. Quase sempre leva tempo.

O corpo

O trauma fica guardado também no corpo: na respiração, na tensão, no desligamento. Na IoPT, o que se sente durante o encontro, quem está no lugar de uma palavra, quem fez a frase, é tomado como informação. Isso aproxima a IoPT do que a teoria polivagal descreve sobre segurança e ameaça no sistema nervoso, embora a origem das duas seja muito diferente.

IoPT e psicanálise

A psicanálise pensa o sujeito dividido pelo inconsciente: há algo em nós que fala sem que saibamos. A IoPT descreve outra divisão, a cisão produzida pelo trauma, em que partes de si deixaram de se comunicar. Não são a mesma coisa, e acho que podem coexistir. Uma escuta psicanalítica atenta reconhece quando quem está falando é a parte que sobreviveu, e quando é outra. Ferenczi já tinha descrito essa clivagem no começo do século XX, e é um dos autores que mais aproximam as duas tradições.

IoPT e constelações

A IoPT nasceu de dentro das constelações e, ao mesmo tempo, se distanciou delas. Na Travessia, a Luciana conduz as constelações familiares e conhece a teoria do trauma de Ruppert, o que muda o modo de olhar o que aparece no campo. São trabalhos diferentes, com origens comuns, e é bom que quem chega saiba disso.

Na Travessia

Uso a IoPT em atendimentos individuais e em grupos, sempre a partir da escuta psicanalítica. Para quem quer entender melhor o campo do trauma, vale ler também o que escrevemos sobre psicotrauma.

Para conversar

Se você reconhece em si partes que parecem não conversar, ou um sofrimento que volta sem explicação, podemos conversar sobre se a IoPT faz sentido para você.

Para ler mais

  • Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
  • Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
  • Sándor Ferenczi, Diário clínico (1932)
  • Sándor Ferenczi, “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933)

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O que é e como se manifesta no corpo, nos vínculos e na identidade.