Psicotrauma
Trauma de identidade: quando não sabemos quem somos
Quando falta uma referência interna para sentir, escolher e existir, o problema não é indecisão. É o próprio chão.
Por Paulo Suliani
Há quem chegue ao consultório com uma frase curta, dita quase com vergonha: “eu não sei quem eu sou”. Às vezes ela vem de outro jeito. “Não sei o que eu quero.” “Não sei nem do que eu gosto.” Quem ouve de fora pode achar que é indecisão, uma fase, cansaço.
Nem sempre é. Muitas vezes a frase descreve com bastante precisão uma experiência difícil de nomear: a de não ter um ponto de apoio dentro de si. Falta o lugar a partir do qual se sente, se escolhe, se diz “isto é meu”. Na psicotraumatologia, chamamos isso de trauma de identidade.
O que é trauma de identidade
Franz Ruppert, criador da IoPT, a abordagem do trauma com que trabalhamos, descreve o trauma de identidade como o mais precoce de todos. Ele acontece quando uma criança, muito cedo, não pôde ser desejada nem acolhida no que era, e precisou se moldar ao que esperavam dela para continuar pertencendo.
O preço dessa adaptação é alto. Para sobreviver ao ambiente, a psique se divide. Uma parte segue funcionando: cuida, agrada, cumpre. Outra fica guardada longe, com aquilo que não pôde ser vivido. A pessoa cresce identificada com a parte que sobrevive e mal sabe que a outra existe.
Winnicott pensou algo próximo com a ideia de falso self, o eu que se organiza em torno do que o ambiente pede e deixa o gesto espontâneo sem lugar. Ele lembrava também que o primeiro espelho de uma criança é o rosto de quem cuida dela. Quando esse rosto devolve outra coisa (a própria angústia, a ausência, a pressa), a criança aprende a se ver pelos olhos do outro. E continua fazendo isso muito depois de crescer.
Não saber o que fazer não é o mesmo que não saber quem se é
A diferença importa. Não saber o que fazer da vida é uma questão de direção, e quase todo mundo passa por isso em algum momento. Não saber quem se é toca em outro ponto. A dificuldade está antes da escolha: em sentir, em desejar, em perceber onde termina o que é seu e começa o que é do outro.
Muita gente descreve isso como um vazio. Não necessariamente triste. Um vazio de referência, que tenta ser ocupado pelo que vem de fora: a opinião de alguém, o papel que se cumpre, a expectativa da família. Nada encaixa por muito tempo.
Por que eu não sei quem eu sou?
A pergunta aparece em épocas de mudança e, nesses casos, costuma passar. Quando insiste por anos, vale olhar para trás. Algumas histórias aparecem com frequência na clínica:
- uma infância em que os sentimentos da criança não tinham lugar, mesmo sem nenhuma violência visível;
- famílias em que era preciso se apagar para manter a paz;
- vínculos que ensinaram que confiar é perigoso, o que chamamos de trauma relacional;
- abuso ou violência, que fragmentam o senso de si;
- a parentificação, quando a criança passa a cuidar emocionalmente dos pais.
Nenhuma dessas histórias, sozinha, define um trauma de identidade. Elas ajudam a entender de onde pode vir uma sensação que, olhada de perto, começa a fazer sentido.
Como o trauma de identidade aparece
Raramente ele chega com esse nome. Costuma se confundir com traços de personalidade, com aquilo que a pessoa chama de “meu jeito”.
- Não saber o que sente nem o que quer. As emoções ficam distantes ou confusas, e as escolhas são feitas por eliminação ou pela influência de alguém.
- Viver no automático. A vida acontece, mas sem sensação de autoria, como se fosse vista de fora.
- Mudar conforme quem está perto. Uma adaptação tão rápida ao outro que a própria posição se perde no caminho.
- Precisar de confirmação para quase tudo. Para saber se está no caminho certo, se é suficiente. Às vezes, para saber se existe.
- Um vazio que não passa, mesmo quando, por fora, está tudo bem.
Nos relacionamentos
É nos vínculos amorosos que isso costuma doer mais. Sem uma base própria, a tendência é se perder no outro. A relação vira o único lugar onde se sente existir, e qualquer ameaça de perda é vivida como ameaça de desaparecer.
Daí o medo intenso de abandono mesmo numa relação estável, a dificuldade de dizer não, a sensação de só existir acompanhado, as escolhas que se repetem com outros nomes. Parte disso a teoria do apego ajuda a entender; parte se aproxima do que descrevemos como trauma de amor.
No corpo
O corpo também guarda essa história. Muita gente com trauma de identidade só percebe fome, cansaço ou dor quando já estão no limite, e trata o próprio corpo como um instrumento que precisa funcionar. Faz sentido. Num ambiente ameaçador ou negligente, deixar de sentir era mais seguro do que sentir.
A teoria polivagal ajuda a ler esse desligamento como uma resposta de proteção do sistema nervoso, e não como falha de caráter. O que protegeu na infância costuma atrapalhar depois. Por isso o trabalho passa também por voltar a habitar o corpo, devagar.
O caminho de volta
Ninguém termina um processo desses com uma definição pronta de quem é. O que se recupera é mais modesto, e mais importante: a capacidade de sentir, desejar e falar a partir de si. Leva tempo. Tem avanços e recuos.
No meu trabalho na Travessia, a psicanálise estrutura a clínica, e é a partir dela que trabalho também com a IoPT. Nela, a própria pessoa formula o que quer olhar e vê aparecer, diante de si, partes que estavam separadas. O que se busca é um lugar seguro o bastante para que essas partes possam, aos poucos, voltar a se encontrar. Para entender melhor o campo, vale ler também o que escrevemos sobre psicotrauma.
Se você se reconheceu
Talvez valha uma conversa. Contar essa história a alguém que escuta já é um começo, e a partir daí dá para pensar juntos qual caminho faz sentido para você.
Para ler mais
- Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
- Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
- D. W. Winnicott, “Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self” (1960), em O ambiente e os processos de maturação
- D. W. Winnicott, “O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil”, em O brincar e a realidade
- Sándor Ferenczi, “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933)
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