Psicotrauma
Trauma relacional: por que repito os mesmos padrões nos relacionamentos?
Quando as primeiras experiências de vínculo viram o molde de todos os vínculos que vêm depois.
Por Paulo Suliani
Algumas pessoas chegam com uma pergunta que as acompanha há anos. “Por que meus relacionamentos sempre terminam do mesmo jeito?” “Por que eu escolho sempre o mesmo tipo de pessoa?” “Eu sei o que está acontecendo, e mesmo assim acontece de novo.”
Essa última frase é a mais importante. Saber não basta, e quem já tentou sabe disso melhor do que ninguém. O que se repete nos vínculos raramente é uma escolha consciente. Tem mais a ver com o modo como aprendemos, muito cedo, o que é estar com alguém.
O que é trauma relacional
Chamamos de trauma relacional o sofrimento que nasce dentro dos vínculos, sobretudo dos primeiros. Ele não depende de um acontecimento único e dramático. Costuma ser feito de experiências repetidas, às vezes discretas, vividas justamente com quem deveria proteger.
Quando as pessoas de quem a criança depende são também fonte de medo, de confusão ou de ausência, ela fica numa situação sem saída: precisa se aproximar de quem a assusta. A criança não pode deixar de amar quem cuida dela. O que ela pode fazer é se adaptar. E aprende, com o corpo antes de aprender com as palavras, que vínculo é perigoso, ou ao menos imprevisível.
John Bowlby chamou de modelos internos de funcionamento esses mapas que a criança constrói sobre o que esperar do outro e de si mesma numa relação. Eles não ficam na infância. Viram a lente através da qual, adultos, lemos cada novo vínculo. A teoria do apego nasce daí.
Por que eu repito os mesmos padrões nos relacionamentos?
Freud deu a isso o nome de compulsão à repetição. Em “Recordar, repetir e elaborar”, de 1914, ele observa que aquilo que não pode ser lembrado tende a ser repetido em ato. A pessoa não recorda o que viveu; ela o refaz, com outros personagens, sem saber que está refazendo.
Os padrões que se repetem foram, em algum momento, estratégias de sobrevivência. Se na infância era preciso se apagar para ser aceito, o adulto continua se apagando. Se era preciso estar sempre alerta para não ser rejeitado, o adulto continua em alerta, lendo cada silêncio do outro como ameaça. O que protegeu lá atrás se torna prisão aqui.
E há um paradoxo que costuma surpreender: o conhecido, mesmo quando dói, parece mais seguro do que o desconhecido. Uma relação boa, tranquila, pode ser sentida como estranha, quase entediante, enquanto a relação que machuca tem um sabor de casa. Não é masoquismo. É o sistema nervoso reconhecendo o terreno em que aprendeu a sobreviver.
Onde começa
O trauma relacional quase sempre tem raízes na infância, e nem sempre em fatos que alguém de fora reconheceria como graves. Algumas situações que aparecem com frequência na clínica:
- pais emocionalmente indisponíveis ou imprevisíveis, carinhosos num dia e distantes no outro;
- um ambiente familiar de tensão permanente, em que a criança vivia pisando em ovos;
- negligência emocional, mesmo com todos os cuidados físicos em dia;
- a inversão de papéis, quando a criança passa a cuidar emocionalmente dos pais;
- críticas constantes, comparações, a sensação de nunca ser suficiente;
- abandono real, ou a ameaça repetida de abandono.
Nada disso precisa ser extremo para deixar marca. O que conta é o que a criança viveu e o que precisou fazer de si para atravessar.
Como o trauma relacional aparece
Muitas vezes ele se confunde com o “jeito” da pessoa. Alguns sinais comuns:
- Medo intenso de abandono. Mesmo numa relação estável, a sensação de que o outro vai partir. Um atraso, uma mensagem seca, e o chão some.
- Dificuldade de confiar. O desejo de se abrir existe, mas algo trava. A intimidade parece perigosa.
- Oscilar entre grudar e fugir. Precisar demais do outro e, quando ele se aproxima, querer distância.
- Vigilância constante. Ler o tempo todo os sinais do outro, para prever e evitar conflito ou rejeição.
- Se apagar. Colocar sempre as necessidades do outro na frente, até não saber mais quais são as próprias.
Relação e identidade
Quando os primeiros vínculos foram instáveis ou ameaçadores, faltou espaço para a criança descobrir quem era. Ela precisou se moldar, se esconder, se ajustar ao humor de quem cuidava. Por isso o trauma relacional anda tão perto do trauma de identidade e da experiência de vazio interior. Muita gente descreve isso dizendo que não sabe quem é fora de uma relação, como se precisasse do outro para existir.
O corpo nas relações
O corpo guarda essa história com precisão. Num conflito, ou num momento de intimidade, aparecem o coração disparado, o nó na garganta, o aperto no peito, a vontade de sair correndo. Às vezes o contrário: um desligamento, como se a pessoa saísse de cena.
Nada disso é escolha. Stephen Porges chama de neurocepção essa avaliação de perigo e de segurança que o sistema nervoso faz antes de qualquer pensamento. A teoria polivagal ajuda a entender por que um corpo que aprendeu a associar vínculo a perigo reage a uma pessoa amorosa como se ela fosse uma ameaça. É também por isso que o trabalho com trauma relacional precisa incluir o corpo, e não só o entendimento.
O trabalho terapêutico
Mudar esses padrões não é questão de decisão, e quem já decidiu muitas vezes sabe disso. É um processo que passa por compreender de onde eles vêm, por escutar as reações do corpo, por suportar o desconforto do que é novo e, sobretudo, por viver uma experiência diferente de vínculo.
A psicanálise tem um nome para o lugar onde isso acontece: transferência. Aquilo que se repete com todo mundo acaba se repetindo também com o analista. A diferença é que, ali, a repetição pode ser percebida, falada e, com o tempo, deslocada. Ferenczi insistia que não basta interpretar; é preciso que o analista não repita o que machucou. No meu trabalho na Travessia, parto dessa ética, com a psicanálise estruturando a clínica e a IoPT como uma das ferramentas para olhar as partes que o trauma separou.
Não é rápido. Mas é um caminho que existe.
Se você se reconheceu
Se você percebe que certos padrões voltam nos seus relacionamentos, mesmo quando deseja outra coisa, talvez valha começar por uma conversa.
Para ler mais
- Sigmund Freud, “Recordar, repetir e elaborar” (1914) e Além do princípio do prazer (1920)
- John Bowlby, Apego e perda, v. 1: Apego
- Sándor Ferenczi, “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1933)
- Franz Ruppert, Amor, desejo e trauma (EDUCS, 2022), tradução de Paulo Ricardo Suliani
- Franz Ruppert e Harald Banzhaf, Meu corpo, meu trauma, meu eu (EDUCS, 2. ed., 2023), tradução de Paulo Ricardo Suliani e Lia Bertuol
- Stephen Porges, Guia de bolso da teoria polivagal
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